segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Hipocrisia e integridade: a verdade por trás das máscaras

Quantos papéis diferentes nós interpretamos ao longo de nossas vidas? Quanto mais papéis, mais fracas as interpretações. Porque para dar consistência a um papel, precisamos nos dedicar bastante a ele. Como se fosse o único de nossas vidas.

O ator é um artista que, como qualquer pessoa, tem sua própria história, sentimentos, critérios e valores. Mas quando está em seu ofício, precisa deixar tudo isso de lado e pôr toda a sua energia na interpretação que faz, a fim de que aqueles que o assistem creiam no personagem, cuja mitologia e valores são diferentes dos seus e vão sendo transmitidos ao longo de sua atuação.

Na Grécia antiga, a atuação do ator era chamada de "hypocrites". Como é de se esperar, essa palavra virou adjetivo em nosso idioma. Consiste em dissimular um comportamento que não lhe é próprio, que é inconsistente com a personalidade de quem o interpreta.

Todas as pessoas criam, conscientemente ou não, uma história e um código de valores. Esses valores, naturalmente, vão sendo definidos junto com a personalidade pelo aprendizado obtido no desenvolvimento da própria história pessoal. Ao mesmo tempo em que essa personalidade vai se estabelecendo, as pessoas ao seu redor observam suas atitudes e discursos e estabelecem um juízo de valores a seu respeito, com forte influência dos valores preconizados pela sociedade como "aceitáveis".

Essa imagem percebida pelas pessoas ao seu redor nem sempre corresponde àquilo a que desejar quem a transmite. Isso porque o julgamento que cada um faz passa pela sua capacidade de interpretação dos fatos e pelo seu próprio código de valores.

Quando alguém vislumbra outra pessoa tomando uma atitude ou fazendo um discurso que seja incompatível com a imagem até então definida, entende-se que esteja interpretando um papel. Que está dando vida a um personagem dissociado de sua própria imagem. Portanto, que está sendo hipócrita.

Essa dissociação entre o ator e o personagem pode ser uma simples falha de interpretação por parte de quem julga, pelo fato de não ter conhecimento prévio suficiente sobre a pessoa que está julgando. Mas também pode ser provocado por outro fator diferente.

Desde que nascemos, somos ensinados que precisamos nos adequar aos padrões sociais para sermos aceitos. Esses padrões são os valores que atuam nos mais diversos meios, a começar da própria família. Dentro de nossas casas, à medida em que crescemos, recebemos uma série de incentivos e reprovações sobre o nosso comportamento, conduzindo-nos a nos adequar às expectativas que nos fazem.

À medida em que vamos crescendo e interagindo em outros círculos sociais, vamos descobrindo novos padrões de comportamento impostos implícita ou explicitamente. E, diante da necessidade de sermos aceitos nesses círculos, vamos incorporando à nossa personalidade os padrões que entendemos serem compatíveis e que nos tornarão pessoas melhores.

Acontece que, eventualmente, podemos nos deparar com padrões que não se adequem à nossa personalidade, com o que há de mais intenso em nosso ser. Em algumas circunstâncias, isso pode se revelar muito mais difícil do que imaginaríamos, pois nem sempre conhecemos nossos próprios limites.

O conflito interior gerado por esses impasses poderá gerar extravasamentos que sejam inconsistentes com a personalidade, e até involuntários... o indivíduo está, na realidade, buscando se adequar. Esses extravasamentos serão vistos como atuação por quem quer que se dê conta. Será julgado como falsidade, hipocrisia.

É muito fácil rotular alguém de hipócrita. Fazemos isso o tempo todo: pais hipócritas, porque não toleram nos filhos os erros que cometeram quando eram igualmente jovens; políticos hipócritas, porque falam uma coisa e fazem outra; religiosos hipócritas, porque impõem padrões de santidade que não se propõem a seguir.

No entanto, a própria sociedade é hipócrita em si mesma, quando chama alguém de hipócrita e, ao mesmo tempo, impõe a alguém uma máscara por determinar como ela teria que se comportar. Ela é hipócrita quando impõe um modelo de diversidade e, ao mesmo tempo, rejeita perfis tradicionais, como as famílias conservadores e os religiosos igualmente conservadores.

Restabelecendo a integridade perdida
Quando, por força das circunstâncias, somos obrigados a vestir alguma dessas máscaras e interpretar um papel, devemos fazer um esforço a fim de restabelecer a integridade perdida. Nossa personalidade tem a capacidade adaptativa, e certamente há habilidades que nos fazem crescer como pessoas. Essas podem e devem ser incorporadas à nossa personalidade. As pessoas mudam, e a repetição de novas atitudes, que num primeiro momento podem ter sido encaradas como hipocrisia, venham a ser aceita posteriormente como exemplar.

Certamente, pessoas virtuosas são íntegras. Apresentam-se inteiros, como são, em quaisquer circunstâncias e para quaisquer públicos, ainda que possam comunicar-se de formas diferentes para transmitir uma mesma mensagem. Se analisarmos bem, veremos que as grandes personalidades de todos os tempos tinham essa característica. Eram homens ou mulheres de uma peça só, com personalidades indivisíveis e fortes convicções.

Que ao longo de nossas vidas possamos todos crescer como pessoas, sendo íntegros e completos, em pleno aperfeiçoamento. Que não tenhamos medo de nos mostrarmos como somos às pessoas ao nosso redor, deixando claro que tipo de contribuição estamos dispostos a dar. E não nos faltará um lugar para estar e nos realizarmos integralmente.